quarta-feira, 13 de junho de 2012

Estupidificados pela Dominância - Parte I - Por Dr. Karen Overall


Estupidificados pela dominância - Parte 1

artigo original aqui

Explorando os nossos mitos e concepções erradas sobre as relações humano-cão


O problema: A maioria dos problemas comportamentais caninos ou envolvem comportamentos naturais do cão que não são aprovados pelo homem ou não são compreendidos ou problemas relacionados com ansiedade que incluem verdadeiros diagnósticos comportamentais. O fundamento para se tratar qualquer problema comportamental canina assenta-se em:

  •  Compreender o que é “normal”
  •  Identificar e atenuar os riscos
  •  Comunicar eficazmente com o cão
  •  Ler os sinais comunicativos do cão
  •  Ir de encontro às necessidades do cão

E ainda, o principal conselho que demasiados veterinários e treinadores dão aos seus clientes, ignora por completo este fundamento e aparece focado principalmente nas necessidades humanas:

  •  “Você tem de dominar bem o seu cão!”
  •  “ Você tem de ter o controlo e mostrar ao seu cão quem manda!”
  • "Você tem de ser o alfa!”
  • "Você tem de ter a certeza que o seu cão é o submisso"

Será este focus antropocêntrico realmente necessário e será que reflecte verdadeiramente o nosso historial com os cães?

A resposta a estas duas questões: Claro que não! O conceito de dominância aplicado aos cães domésticos é baseado num profundo desconhecimento da história partilhada de cães e humanos.

A relação única entre cães e homens

Os cães têm uma relação única com os humanos que não se assemelha a nenhuma outra no reino dos animais domésticos. Os cães foram selecionados ao longo dos tempos de modo a colaborarem e trabalharem intimamente com os humanos e tal selecção deu origem historicamente a raças de cães que hoje em dia se encontram separadas por grupos.
Os dados moleculares confirmam que os cães estão geneticamente separados dos lobos desde à 135 000 anos. Dados Moleculares e antropológicos mostram que o cão tal como o conhecemos, vive na sociedade humana, desempenhando diferentes à pelo menos 15 000 anos. Dados antropológicos sugerem que a ligação cão-homem iniciou-se à cerca de 30 000 anos. Pelo menos nos 2 000 anos que passaram, definiram-se grupos de raças bem definidas, compostas por cães de diferentes tamanhos e formas que estão relacionados com determinada tarefa.
A maioria das variações físicas nas raças de cães é o resultado de selecção dum determinado comportamento que vinha acompanhado de um determinado aspecto físico. Por exemplo o tipo de pelo pode depender do tipo de comportamento desejado – como acontece por exemplo com a raça Springer Spaniel Ingles onde temos os indivíduos selecionados para trabalho são completamente diferentes dos indivíduos selecionados para exposições, chegando mesmo a parecer raças distintas.
A nossa relação única com os cães deriva da convergência entre a evolução do sistema social canino e humano que resultam do encontro entre grupos com os mesmo interesses que reconhecem o poder do esforço colaborativo seguido secundariamente pelas mudanças ao nível da função cerebral que permitiram ao homem e cão modernos entenderem-se e contarem um com o outro.

Padrões comportamentais partilhados por cães e humanos

Tanto os humanos como os cães:
  • Vivem em grupos familiares alargados
  • Providenciam cuidados parentais até à maioridade
  • Têm especial atenção e carinho para com os mais novos, mesmo que não pertençam ao seu grupo familiar
  • Dão à luz crias completamente dependentes e imaturas que requerem um grande cuidado e, mais tarde, cuidados constantes de interacção social.
  • Amamentam por um extenso período e no desmame passam por um período de alimentação semissólida (os cães regurgitam; os humanos têm as papas para bebé, mas o conceito é o mesmo)
  • Têm um extenso vocabulário vocal e não vocal
  • Têm uma maturidade sexual que precede a maturidade social
Dentro das características dos comportamentos sociais que os cães partilham com os humanos, está que o seu sistema social é baseado no respeito e consideração pelos outros indivíduos. Adicionalmente, muitos dos sinais comunicativos associados são redundantes (vários sinais com o mesmo significado), e a maioria dos sinais comunicativos são não vocais.

 Dados recentes indicam que os cães também são comparáveis com os humanos no que toca à cognição de complexidade social envolvida no entendimento de sinais de longa distância sobre, por exemplo onde está a comida escondida. Os cães conseguem comunicar melhor aos outros esta informação. Os cães aparentam ter a capacidade de “mapear” – fazer deduções sobre classe, nome, função e localização de um objecto, sem o terem aprendido – e comunicar esta capacidade aos humanos. Tal como os humanos, os cães sofre daquilo que nós reconhecemos como ansiedade desajustada – que interfere com o sei normal funcionamento.

Finalmente, quando examinamos as taxas de expressão génica  de mutações em regiões do tecido neuronal, a única espécie das estudadas que tem taxas comparáveis às dos humanos é o cão doméstico. Tais dados, quando comparados em conjunto, sugerem que os cães e os homens têm trabalhado como companheiros de maneiras mais profundas do que à partida pensaríamos.

As interpretações erradas e as limitações da literatura etológica e comportamental

·         A Dominância é um conceito etológico tradicional que diz respeito à capacidade individual de um indivíduo – normalmente em condições específicas e controladas – de  manter ou regular o acesso a um determinado recurso. É uma descrição da competição de  perder ou ganhar em relação a esses recursos. N~~ao tem de ser confundido com o status social, e não tem necessariamente de conferir prioridade no acesso a esses recursos.

·         Nas situações em que a dominância tem sido usada com uma preocupação de status, é importante perceber que não é definida como  a agressão por parte do “dominante”, mas sim como o afastamento do “submisso”.

·         O comportamento dos indivíduos de status social relativamente baixo, e não os de status social elevado, é o que determina as classificações hierárquicas relativas.

·         A classificação por si só tem de ser contextualizada como relativa. Pois na verdade os animais verdadeiramente acima na hierarquia são tolerantes para com os de hierarquia mais baixa, não mostrando os tais comportamentos dominantes.

·         Lutas por lugares sociais raramente dão origem a verdadeiras lutas físicas. Estas só aparecem quando todos os sinais comunicativos não são eficazes e falham.

·         Se não houver uma prévia presunção de uma sistema baseado na dominância, dificilmente se identifica tal sistema. Por exemplo, aquando do estudo de babuínos, classificou-se os animais de acordo com o tipo de comportamento (amigável, assustadiço, etc) e posteriormente, quando se analisou o comportamento específico dos indivíduos não foi observado um sistema baseado na dominância.

As interpretações erradas de problemas patológicos comportamentais e como eles surgem.
O mal uso e interpretação do conceito de dominância no que diz respeito aos animais domésticos, criou sérios problemas no que toca ao entendimento dum comportamento diagnosticado simplesmente como agressão por dominância (ou agressão por conflito). Existem três conceitos que sofreram com este tipo de interpretações:
  1. A Dominância tem sido erradamente equacionada como um status social ou ordem rígida numa hierarquia, que se pensou desenvolver-se através da competição entre cachorros que conseguem prever a necessidade de um status social em adultos. O comportamento de posse em relação a um osso foi sendo usado como um teste de dominância em cachorros. Na verdade, os cachorros são muito mais fluidos nas relações que mantém, que se vão alterando à medida que a química dos seus cérebros também se altera. A ordem hierárquica que é obtida através de actividades experimentais , está relacionada com a maneira como se realiza a experiência e não com os comportamentos em si. A própria actividade experimental vai criar uma hierarquia que antes não existia, induzindo os resultados que se esperam à partida.
  2. Devido à maneira violenta como as pessoas acreditavam que a rígida hierarquia era imposta, os humanos têm sido encorajados a colocar-se a eles mesmos no topo dessa suposta hierarquia de maneira a que eles mesmos sejam os dominantes. No entanto, a nossa história com os cães mostra-nos que a relação cão-humano é das que desenvolve mais trabalho cooperativo e colaborante. Um relação hierárquica como a que a teoria da dominância impõe não permitiria o desenvolvimento de tal relação de trabalho cooperante pois não deixaria ao cão nenhuma margem de manobra e teria de ser o homem a fazer todas as decisões relacionadas com a tarefa a desempenhar. Para além disso, os sistemas sociais baseados em comportamentos diferenciais e na obtenção de informação podem confundir-se com estes sistemas de topo-base (como o defendido pela teoria da dominância) se não forem observados cuidadosamente. Deferência e respeito em contextos apropriados removem a necessidade de controlo.
  3. Finalmente, cães que exibem tal diagnóstico que é baseado em ansiedade patológica e não no uso insuficiente de força, foram tratados exercendo-se dominância física e psicológica sobre eles. O conselho mais devastador que tem sido dado aos donos é que eles têm de ser dominantes para com os seus cães e mostrar-lhes (aos cães problemáticos) “quem é que manda”. Por causa desta moda, inúmeras pessoas têm sido mordidas pelos cães que elas próprias têm traído, aterrorizado e deixado sem alternativa. E para os cães que são diagnosticados com desordens de ansiedade (diagnóstico que envolve processamento de informação e análise precisa dos risco), os comportamentos usados para dominar um cão, tais como bater, gritar, enforcar (com coleiras enforcadoras), forçar o cão a ficar deitado, sentado, executar alfa-rollovers e outras técnicas punitivas e coercivas, convencem o cão que está magoado, necessitado e doente de que o humano é uma ameaça, resultando na degradação da condição do cão.

É para ontem a necessidade de mudarmos o nosso pensamento! 

Sobre a autora:
 
Dr. Overall, faculty member at the University of Pennsylvania, is a diplomate of the American College of Behavior Medicine (ACVB) and is board-certified by the Animal Behavior Society (ABS) as an Applied Animal Behaviorist.

3 comentários:

  1. Só o título diz tudo...A mudança é lenta mas acredito que acontece. Pode demorar, mas enquanto houver quem reme contra a maré há esperança ainda que remota de que um dia a dominância seja uma coisa do passado, em que o uso de aversivos seja tão mal vista como "arrastar mulheres pelos cabelos"... É que isto do alpha e da dominância só me faz mesmo lembrar o tempo das cavernas... Quando é que as pessoas percebem que o animal que têm em casa é um cão e não um lobo?

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  2. gostei muito, tópico sensacional mostra a todos os treinadores que a relação com o cão não eé de disputa, mas de parceria com aqueles que nos oferecem a amor sem medida ou preconceito!

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  3. Obrigada Fernando =)
    Para a semana vem a tradução da segunda parte que mostra como devemos proceder para agir em cooperação com eles e não em competição com eles.

    Filipa, é mais do que o tempo das cavernas, é mesmo, como diz o título, tempo da estupidez. Se leres o texto, a Dr. Karen Overall diz que esta coisa da dominância é uma coisa recente. Que seria impossível chegarmos onde estamos com os cães se desde o princípio tivéssemos agido com eles baseando-nos na teoria da dominância. Situações de trabalho como o pastoreio e a caça surgiram de forma natural. O cão "escolheu" colaborar connosco. Foram sendo seleccionados os indivíduos que melhor colaboravam connosco e que conseguiam resolver as tarefas de maneira mais eficaz. Não foram escolhidos os mais "submissos", mas sim os mais cooperantes.

    E a dominância nos lobos... Isso também é uma grande questão... A verdade é que tu consegues sempre retirar um comportamento duma circunstância e classificá-lo como dominante ou submisso. Seja qual for o comportamento ou mesmo a intenção do mesmo. Há estudos que mostram que a relação dos lobos é hierárquica sim, mas não é estanque. Não há lutas pelo poder, há sim distribuição de recursos e cooperação onde o objectivo primordial é a sobrevivência da ninhada mais jovem. O casal "alpha" vai mudando, e é sempre o que se reproduz. Claro que há lutas pelo acasalamento, mas quando a ordem está "estabelecida", não há dominantes nem submissos. Há cooperantes, comunicação e luta por um bem comum. Tenho de ir "repescar" esses artigos...

    Obrigada pelos comentários =)

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